Dedicado à Sociedade dos Poetas Mortos.
“Oh, Capitão, meu Capitão”
Luz, Sombra e Penumbra
“E então o demônio veio até nós. Muitos de meus irmãos colocaram-se ao seu lado, pois compactuavam com sua belicosidade e sua intolerância. Juntos, marcharam sobre os corpos de seus antigos aliados, esmagaram seus antigos símbolos. Juntos, enfrentaram o julgamento, cada qual como lhes era adequado. Juntos traíram. Juntos caíram.”
- Você acha que eles não merecem ser salvos, Bonfim?
- Nesse caso, acho que não é algo que depende da gente.
- Como assim? Nosso dever é trazê-los de volta à luz!
- Conversa. Isso é besteira. Luz, Sombra. Você precisa se livrar desse maniqueísmo se quiser entender como as coisas são de verdade. Cada um de nós usa encara o mundo de uma forma diferente e não há bem ou mal absolutos. Todos vivemos na penumbra. Eles estão lá porque querem.
- Eles foram enganados! Não sabem de quem se trata! Seguem por seu carisma, por sua retórica.
-Eles só o seguem porque pensam de forma semelhante! Seguem porque são como ele!
- Não... não pode ser. Isso faria deles...
- Isso faz deles exatamente iguais a mim ou a você, mas com opções diferentes. Nada mais, nada menos. Além disso, não há nada que possamos fazer, efetivamente. Eles seguem seus corações. Vão enfrentar as conseqüências disso, quando for o momento.
- Não entendo. Nosso propósito é trazer a verdade. Desmascarar os que buscam ludibriar os desavisados. Como podemos deixar que eles sejam conduzidos pelo inimigo?
- Trata-se de uma questão simples. Não estamos aqui para reconduzi-los até a luz, ou seja lá como você queria chamar seu código de ética. Para isso, deveríamos, primeiro, presumir que essa ética é a correta, o que já seria uma grande idiotice. Segundo: só se reconduz alguém que se desviou de algo, um caminho, talvez, que já seguisse. Também não podemos partir daí. Acredite, eles estão lá justamente porque suas escolhas os levaram a isso. Você não é um salvador, amigo. Contente-se em ajudar quem quer sua ajuda. Cada um segue sua trilha, molda seu caminho. Alguns seguem em nossa direção, pois têm filosofias próximas às nossas. Outros não. São caminhos diferentes, apenas. Por isso, cuidado com suas intervenções. Você não está apto a dizer quem está certo ou errado. Nenhum de nós está.
-Me recuso a acreditar que as coisas sejam tão caóticas! Se fosse assim, não importam os atos, não importa a moral. Todos estão certos e vence o mais forte!
- Não se trata de vencer, amigo! Trata-se de ir adiante! Não importa para que lado seguem, todos os caminhos levam a um mesmo destino. O Julgamento. O que a maioria não sabe, e os que sabem, muitos tentam ignorar, é que o juiz não é outro senão o próprio réu. Cada um é juiz de si mesmo e decreta, por assim dizer, a pena que lhe for necessária para aprender e ir adiante. Não se engane. Ninguém está livre disso, pois todos estão sujeitos aos erros e, sobretudo, ao arrependimento. É questão de tempo. A culpa está ao alcance de todos. A redenção, de alguns.
- E o que acontece com os que não chegam à redenção?
- Vêm para cá.
- Estou falando sério!
- Eu também. Eles vêm para cá. Aqui é onde esses, que ainda não se resolveram, vêm procurar respostas. E eu estou aqui pra ajudá-los nisso. De um jeito ou de outro.
- Então, não há Céu, Inferno, Deus, Diabo?
- Deus... Diabo... já vi muita coisa nessa vida. Algumas reclamavam esses títulos, mas nenhuma estava à altura. Sobre o Céu e o Inferno, não seja tolo. Claro que existem. Estão, ambos, dentro das nossas almas.
Semelhanças
- Sabe uma coisa que eu nunca entendi? Por que diabo você usa essa cruz no pescoço?
- É um Ank.
Isso. Então, nunca entendi a razão disso. Você não é ateu?
-Sou.
-E isso não é alguma coisa egípcia, sei lá?
-É. Até onde sei, significa fertilidade e, consequentemente eternidade. Ou imortalidade.
- Como assim “fertilidade” e “eternidade”? De onde você tirou isso?
-Internet.
-Não é uma fonte muito segura.
-Me basta.
-Mas, se você é ateu, porque usa isso?
-Pela mesma razão que os religiosos usam seus símbolos, claro.
-E que razão é essa? Fé? Ateu não tem fé!
-Não é fé. É medo. A razão pela qual eu e os religiosos usamos nossos símbolos é o medo.
-Medo? Como assim?
-Medo. Usamos símbolos pra ostentar nossos medos. Eles tem medo de irem pro Inferno, por isso cultuam seu Deus, algo irreal, na minha opinião. Inalcançável, no mínimo. Cultuam aquilo que queriam ter. Mas não é Deus ou o Paraíso que eles querem. Querem é ficar longe do Inferno, do sofrimento, da desgraça. Procuram, portanto algo diametralmente oposto e por isso buscam o Céu. Da mesma forma que eu, ateu, temo a morte mais do que tudo. Não tenho Céu para ir, portanto, terminar minha passagem por aqui é assustador. Imortalidade é algo que não posso ter, inalcançável também. Assim como eles, cultuo aquilo diametralmente oposto. No fim das contas somos todos covardes.
Contagem Regressiva
"As pessoas, cada um delas, estão separadas por rios. Esses rios são formados pelos medos e egoísmos das pessoas que cercam, portanto, como você pode imaginar, são rios bastante grandes. Grandes o suficiente para separar as pessoas de tal forma que uma não consegue ouvir a outra. Mas o mais interessante disso tudo, rapaz, é que elas acham que se entendem."
- Conversar? Perda de tempo, Sônia. As pessoas são incapazes de dizer o que realmente querem e, ao mesmo tempo, são igualmente incapazes de ouvir outra coisa se não aquilo que desejam.
- Do que está falando, Samuel! Você não está bem, cara. Não está sendo fácil pra mim também, mas a gente – você! – vai ter que superar isso! Eles morreram, e por mais que a gente saiba que não há culpados nisso, vamos ter que parar com essa palhaçada de auto-piedade e seguir em frente.
Silêncio. Ele não disse mais nada. Dentro da nova perspectiva de Samuel, não havia razão alguma para se afetar com as palavras de Sônia. Perda de tempo, como disse a ela. Apesar disso, era possível jurar que ele estava prestes a sorrir com desdém. Talvez tenha sorrido, de forma subliminar.
Se a vida tivesse senso de humor, com certeza não seria dos melhores. Veja bem: se tivesse. Acontece que não tem. As pessoas têm essa mania de atribuir humanidade a tudo. O homem criou um deus para cada coisa que existe, tamanho o seu medo de estar sozinho. Ao longo das eras, foram criados e descriados deuses da chuva, do vento, da terra, das goiabas, da vida, da morte, cada qual com sua função que, em geral, era imitar o homem. Não deixa de ser engraçado, porém, Samuel desejar exatamente o oposto disso tudo. Ele queria ficar sozinho. E não era uma vontade boba, para fazer cenas de sofrimento ou simplesmente para ter um tempo de reflexão. Ele queria de fato ficar sozinho. Não sentia verdadeira e absolutamente nenhuma – e eu friso NENHUMA- vontade de estar com alguém. Onde entra o senso de humor da vida? É como se ela gostasse de colocar o homem à prova, porque, independentemente da vontade de Samuel ser real ou não, era justamente isso que aconteceria caso as coisas continuassem nesse rumo. Não apenas pela sua atual postura, o que indubitavelmente redundaria no afastamento de qualquer ser mais inteligente do que um primata superior, mas também pelos cálculos dos últimos tempos, com amostragem verossímil e documentada pelas certidões de óbito de seus pais.
Durante os 10 anos que esteve em coma, sua mãe acompanhou cada dia de seu estado imutável. A pobre mulher o visitava todos os dias e rezava, vejam vocês, pela sua melhora. Entre uma infinidade de lágrimas, ameaças e pedidos de perdão por erros que ela sequer cometeu, a pobre mulher não resistiu por muito tempo. Seu corpo dava sinais de definhamento por conta do quadro depressivo, talvez de tom quase melancólico, mas provavelmente suportaria mais algum tempo. Acontece que foi justamente o efeito psicológico desse martírio que lhe trouxe o fim. De um jeito bastante teatral, é verdade. Mas ninguém pode dizer que ela não estava de fato sofrendo. Suas últimas palavras foram delírios (abafados pela porta do quarto premeditadamente trancada) enquanto ela sangrava seus pulsos ao lado do corpo comatoso do filho. Infelizmente Sônia chegara tarde para a visita e só pôde ouvir o fim de um fantástico discurso de fé e chantagem da pobre senhora convocando, com ternura, o filho para salvar-lhe a vida. Chegou até a proferir umas palavras mais esperançosas para Sônia, dizendo que ele voltaria por ela. Ele, é claro, não acordou. É preciso mais do que gritos desesperados e chantagem materna para se despertar de um coma. É preciso vontade. Muita vontade
Isso foi há cerca de 5 anos. A pobre senhora deixou pra trás um filho comatoso, uma filha a beira do desespero (com alguma razão, devemos admitir) e um pai, que, de ausente, passou a ser nulo. Sônia era a filha mais velha. Quando perdeu a mãe, contava penas com 19 anos mal gastos para suportar o fardo de levar o que sobrou da família adiante. Assim foi até seus 24 anos, com muita dificuldade e um bocado de indiferença, até que seu pai lhe fez o favor de morrer também. Nunca havia sido um grande homem. Nada de inspirador, mas, apesar disso, também não era uma pessoa ruim. No caso, começou a ser quando deixou de trabalhar e continuou a comer. Tornou-se um fardo que sequer se importava com o desmoronamento de sua família, afundado em auto-piedade e cachaça. Sequer cometia algum ato absurdo quando bebia. Isso, ao menos, daria a Sônia algo para culpar pela sua desgraça. Portanto, vamos deixar como está: ele fez um bem a todos quando resolveu morrer de algo que ninguém se importou muito em saber. Parece que foi dormindo, ou engasgado...
O fato é que o número de pessoas à volta de Samuel estava diminuindo e a tendência, considerando a forma que se portava com Sônia, era continuar assim.
10 anos depois
Isso é tudo que ele lembrava. O que era duas vezes estranho. Primeiro que não tinha nada de luz branca ou anjos cantando, como umas pessoas dizem e, segundo, porque 10 anos é tempo demais para apenas essas palavras. Se fosse lembrar de algo realmente original, Samuel estava triste de ser apenas o que ele acreditava ser um fragmente da morte. Ou quase-morte, como parecia ser mais apropriado. Mas havia uma diferença. O mundo não era mais o mesmo. Não pelas mudanças naturais da passagem do tempo. O mundo era diferente porque ele o via de forma diferente. Sua vida jamais seria a mesma.
1993
Um garoto em uma rua. É assim que começa essa história. Histórias infantis começam com "era uma vez", ao passo que grandes épicos começam com "em tempos distantes" ou algo que o valha. Entretanto, essa história é simples, ao menos em seu princípio. É sobre o jovem Samuel. A bem da verdade, de forma particular, ele mesmo não a consideraria assim tão simples, afinal, está apaixonado. Apaixonado de uma forma especial, como somente um garoto de 10 anos poderia estar. Ele está feliz e com medo ao mesmo tempo.
Hoje ela olhou para ele no corredor da escola e havia algo diferente. Algo no rosto - talvez um rubor - sugerindo que ela estava envergonhada. Sorrindo, porém, ao ser pega enquanto o observava. Isso é bom, segundo sua lógica pueril. Se ela ficou com vergonha, era porque estava, com certeza, pensando em algo, certo? Algo que não se costuma pensar a respeito de alguém, porque, se fosse algo comum, ela não teria ficado com vergonha, certo? Pois então! Isso é claramente um sinal de que ela gosta dele! Nesses tempos, Samuel era um jovem bastante objetivo. Isso, contudo, aliado à sua inexperiência e, obviamente, aos seus desejos, o fazia bastante passional em seus julgamentos. Como qualquer garoto de 10 anos. E outros ainda mais velhos.
Nesse dia, ele sequer pôde ter confirmação sobre seus devaneios. Jamais soube que a tal menina estava apenas resfriada e o rubor na verdade era um pequeno avermelhamento de seu nariz. O sorriso que lançou não foi para ele, mas para uma outra garota, que estava ao seu lado. Essa garota jamais viu Samuel. Não como ele gostaria que ela o visse. Não como ele tem certeza de que o viu. E, apesar disso tudo, a verdade não importa. Ele está apaixonado e, para todos os efeitos, ela também. O que farão? Sair sozinhos, com certeza. Se os pais dela deixarem, claro. Mas ele dará um jeito. Vai buscá-la em casa escondido. Vai salva-la de uma vida chata e tornar-se seu herói. Gostaria de ser como um herói mesmo, pra garantir que nada acontecesse a eles. Seria indestrutível! Não!! Seria forte!!! Poderia assim resolver todos os problemas dela e ela seria completamente grata a ele. Faria tudo que ele quisesse, mas não por medo. Faria porque gostava dele. E eles iriam transar! Sim, transar muito, porque ela parecia ser uma menina quieta, mas seus amigos dizem que as quietas são sempre surpreendentes (em um exercício de paradoxo que somente as crianças, cheias de certezas, poderiam orquestrar). Só que ele não permitirá que ela seja "surpreendente" demais. Teria que ser uma mulher direita, afinal, ficariam juntos para sempre.
Por meia-hora, Samuel desenvolveu toda sua teoria lógica a respeito do gostar e de como seria sua vida com essa garota que, agora se dava conta, sequer sabia o nome. Por meia-hora ficou ausente desse mundo, o que certamente explica sua apatia com a grande movimentação do outro lado da rua. Há 14 anos a cidade não era como hoje, certamente. Coisas que, hoje, são encaradas com certa apatia ou comoção breve, naquele tempo eram motivo de revolta popular. Portanto, houve muito tumulto quando dois homens em uma moto passaram atirando em alguns policiais que estavam em um bar. Talvez estivessem apenas descansando. Talvez estivessem extorquindo o dono do bar. Seja lá o que for, não importa a razão pela qual estavam lá. Nesse momento razão alguma importava. Uma bala na cabeça é sempre uma bala na cabeça, seja lá qual for o motivo
Samuel não viu quando os homens passaram perto do Bar nem quando sacaram suas armas. Não viu quando os policiais revidaram os disparos atingindo outras duas pessoas além dele. Não viu pois estava aéreo, ensaiando sua vida com sua nova namorada. Samuel não viu o descaso com que seu corpo fora tratado, estirado no chão com um ferimento em sua cabeça, nem os incontáveis minutos até que alguém lhe prestasse socorro. Talvez 1993 não fosse tão diferente de 2007 afinal.
Mas havia algo diferente. Os seus pensamentos, agora focados, deixaram a tal menina de lado e voltaram-se para sua situação. Não estava mais nas ruas de Redenção, sua cidade. Não estava em qualquer lugar que conhecesse. Estava tudo escuro. Por alguma razão, Samuel acha que deveria estar com frio também, pois não estava vestido e não havia luz alguma para aquecê-lo. Apesar disso tudo, podia ver seu corpo. Havia também um grande espelho, com moldura de prata, decorado. De alguma forma estranha, apesar de não haver luz, podia ver-se no espelho. Embora ainda relutasse a se reconhecer. Sua fisionomia era atrevida e debochada. Os olhos agudos e firmes, como os de quem sabe algum segredo que vale o beijo da moça mais bonita. Samuel estava submerso em um mar de escuridão, sem pisos, paredes, luz, roupas. Nada. Estava sozinho consigo mesmo, ou com uma versão estranha de si e isso era absolutamente desconfortável. Quem gosta de fitar o demônio que se reflete quando nos olhamos em um espelho escuro, afinal?