Nostalgia e Vodca

Como de costume, eles se encontraram no Madruga. Como de costume, Samuel estava de cara fechada e Bonfim com aquele sorriso de quem está arrumando sarna pra se coçar. Como de costume. Sentaram-se na mesma mesa e sempre. Uma bem no canto, de onde podiam observar o movimento, olhar para as prostitutas e ficar perto o suficiente do balcão para ouvirem qualquer segredo que não lhes dissesse respeito.
- Então, Samuca, porque essa cara de bunda?
- Não estou com cara de bunda.
- Está sim. Você sempre está com cara de bunda, mas hoje está pior. Dá até pra achar que andou chorando. O que foi? Perdeu a mulher? De novo?
- Não, idiota. Não é nada disso. É só que eu estou meio chateado. Na que não vá passar sozinho.
- Ah, sei. Quer falar sobre isso o que está acontecendo?
- Não.
- Foda-se. Olha, cara, eu te conheço há pouco tempo, mas a gente já compartilhou mais coisa nesse tempo do que a maioria das pessoas compartilha a vida inteira. E olha que somos dois sujeitos difíceis. Mas você um dos poucos amigos que tenho. E o único que eu tenho no raio de alguns quilômetros. Então pare de showzinho e fala logo o que se passa.
- Você é um saco, sabia? Porra, é que eu estou meio chateado com o rumo que as coisas tomaram. Bem, não é bem isso. Eu estou onde estou por vontade própria. Você sabe, que eu sou pior que uma mula quando decido pegar a esquerda em ã ao direita.
- Deus, se sei. Chega a ser meio burro.
- Tá, ta. Pediu que eu fale, agora senta o rabo e ouve. A verdade, cara, é que eu estou um pouco nostálgico.
- Ah, cacete! É isso? E eu achando que o mundo ia acabar. Tipo aquela vez que...
Samuel olhou para Bonfim com os olhos cerrados, uma cosa que em qualquer outro sujeito, para ele, seria ridículo. Bonfim não era um cara de se intimidar facilmente. Na verdade, pode-se dizer que é, em situações normais “inintimidável”, como gostava e dizer. Mas talvez seja porque Samuel fosse um cara ainda mais soturno do que a maioria das coisas que Bonfim encontrou (salvo uma exceção), ou então porque levava o amigo em tão alta conta que se assustou com a possibilidade de estar se excedendo e magoá-lo. Ele ficou quieto.
- Andei um tempo pensando em umas coisas, como elas eram quando eu era moleque. Sabe, nada de assombroso. Talvez essa seja a parte do Samuel que você menos conheça, porque não envolve nada daquilo com o que a gente costuma se envolver. É normal, e por isso, pode soar anormal. Quando era moleque, ainda no tempo de escola, eu tinha uma galera com quem costumava andar. Foi meu período mais junk, por assim dizer. Foi um tempo bom, sabe? Toda essa porra de morte, família, morte em família, morte dos outros, a minha própria. Tudo isso era uma besteira tão desimportante que só aparecia nas músicas que ouvia. A gente ouvia Pearl Jam, tomava vodca vagabunda, comia biscoito e tentava comer alguém. Era nosso mundo. Por alguma razão eu tenho a impressão de que foi o tempo mais feliz da minha vida. Mas eu fico é danado de pensar assim, porque, como a gente sabe, não dá pra viver com a venda da juventude pra sempre. Pelo menos não pra sujeitos como nós. Aí eu fico pensando se tomei as decisões mais acertadas, se deixei de fazer as coisas certas. Fica a impressão de que se antes era tão bom e se hoje eu sinto falta, é porque tem coisa errada. E você sabe como odeio errar.
- Hum. Acho que entendo.
- Então. É assim que...
- Você está ficando velho...
- O quê?!
- Você está ficando velho. E surdo, parece.
- Seu imbecil, eu estou falando sério e você...
- Eu não. Fico cada dia mais esperto. Samuel, meu velho, eu vou te falar uma coisa. Não precisava estar falando isso, porque foi você mesmo que me ensinou, paspalho. Sabe muito bem que a gente tem um fardo: viver especulando sobre como as coisas seriam se você tivesse feito algo diferente em um ponto da sua vida. Besteira! Sabe por quê? Porque você não pode comprar uma fantasia com a realidade. É uma competição desigual. Eu sei. Você sabe. A realidade é cheia De lixo, gente escrota, sangue e lágrimas. Tem outras coisas também. A fantasia é só esse mundinho de mentira que você acha que poderia ter. Acha que pode ser adolescente pra sempre? Não pode. Porque mesmo que compre uma camisa de banda e uma garrafa de vodca, o que vai virar é um mendigo. Se tiver sorte vai ser um sujeito adulto vestido de criança. Que nem um escoteiro! E você, pra escoteiro, precisa morrer uma segunda vez, meu querido. Escuta, cara. Não é raro se sentir desse jeito. Não mesmo. Tenho certeza que você está assim porque tem alguma merda fedendo ai no seu quintal. Nem quero saber o que é. Não hoje. Olha à sua volta, Samuca. Sua vida é essa maluquice porque você quis assim. E é disso que você gosta. Pode gostar de um pouco de tolice juvenil de vez em quando, mas não pra sempre. Não pra que isso seja sua vida. Camisa de banda! Há! Essa é de rachar o bico!
- Verdade. Sabe, Bonfim, você é um cara esperto. Não tanto quanto pensa que é, mas o suficiente. Manda o Siri trazer uma vodca vagabunda. Vamos espremer essa idiotice e ver se sai algo de bom...

Ao mestre, com carinho

Aí o MEC está fazendo um monte de propagandas sobre o professor, né? Por um monte, leia-se duas, mas é mais propaganda do que a Coca Cola tem feito ultimamente (essa do besouro eu já vejo faz tempo!!!). Claro, as pessoas já gostam de Coca, por isso não precisa de tanto. Já de ser professor... bom, a coisa não é bem assim, como todos sabem. Isso me lembra aquela apresentação do Chico Anysio que todos conhecem por terem visto no Jô. “Ah, uma família de professores e a senhora vai e vira puta!?”. “Dei sorte, meu filho. Dei sorte...”. É, minha gente, quando a coisa vira piada, é porque está de fato perigosa. Vide as gozações sobre o Sarney e companhia limitada. Veja bem, eu gosto muito de sátiras. Na verdade é minha principal fonte de informação a respeito de coisas que não presto atenção no cotidiano. Voltando ao professor. Minha mãe é professora e eu digo a vocês: não recomendo. Ganha mal, trabalha muito, geralmente não é bem quisto pelos alunos – e olha que ela é professora de educação física! Imagine se fosse de matemática ou química, ou física. Digo isso porque, de modo geral a visão da molecada é a de “nós e eles”. Aliás, “nós contra eles”, marca registrada dessa idade terrível, a adolescência. Sabe como é: a instituição é errada, não serve pra nada, eu enquanto indivíduo jovem é que tenho razão, vamos transgredir e etc. Claro que eu já fui assim. Você também, de um jeito ou de outro. Mas, para não dar muita lenha pra esse papo, retorno à propaganda em si. Acho interessante, mas isso me alarma um pouco. Veja, ninguém faz propaganda de água, por exemplo. Nem de arroz com feijão (com exceção do ministério da Agricultura, o que é um desaforo se você parar pra pensar. Com q quantidade de gente obesa, o governo devia colocar suas necessidades econômicas depois da saúde, mas quando dizem “coma arroz com feijão”, eu escuto um grande “COMPRE... blá blá blá, se fode aí”). A razão disso, é que ninguém precisa ser lembrado de beber água. Da mesma forma que todos sabem... que devem comer arroz com feijão. Quando se faz a propaganda de alguma coisa, você quer chamar a atenção do público para algo que ainda não tem essa atenção. Por isso fico preocupado com essa propaganda do MEC. Ela denuncia que não há a devida atenção com nossos queridos professores. Logicamente não estou falando novidade alguma. O que acho mais obscuro, porém, é o seguinte: quanto o governo paga para esses professores? Quer dizer, se o salário está vinculado ao nível de trabalho. Em uma empresa, quem desempenha a função mais importante, seja no campo administrativo, de produção, de saber ou tecnologia, ganha mais. Aí você vem e diz que o professor é o cara mais importante da paróquia, mas paga um salário sem vergonha pros caras!!!! Das duas uma: ou você está mentindo, e esse sujeito não é tão importante assim, ou você não leva muita fé no que diz. Aliás, esse lance de propaganda é uma coisa engraçada: quando não se está falando de um produto, pode reparar, só se faz propaganda quando a coisa vai mal. As pessoas só se preocupam em mostrar os pontos fortes, sejam eles reais ou mentirosos, de alguma coisa quando os pontos fracos começam a pipocar. Na boa, o nosso governo é uma piada. E pensar com o salário de um aspone você paga 2 ou 3 professores.

Armas, idiotas e armas com idiotas

Quanta gente burra! Eles dizem assim: se as pessoas, toda elas, tiverem armas, os bandidos vão pensar duas vezes antes de se meter com elas. Engraçado, faz tempo que eu não ouço falar de bandido fugindo de polícia. E olha que os homens da lei já vêm quentes, preparados, treinados e com licença pra atirar na bunda dos sujeitos. Não sei não, não sei não. Acho que tem gente querendo fazer valer a própria vontade na força. Espere, mas isso não é o papel do criminoso? Eu já até imagino a cena: o cara sai com a patroa, toma uns gorós, fica chato e distraído. Ai toma um chifre. Então resolve dar um teço no Ricardo, mas este também é “preparado” e os dois encenam aquela clássica do duelo. Só que na TV, todo mundo se tranca em casa e assiste pela janela. Mas se todo mundo tem arma, bom, não é pra dentro de casa que o povo corre. Agora você imagina uma galera armada de um lado “protegendo o amigo corno”, uma galera armada do outro “protegendo o amigo Ricardo”. Um, dois, três e já! Deve ser que nem naquelas batalhas onde os dois exércitos param diante um do outro e um atira. Depois, enquanto o primeiro recarrega, o outro atira. E por ai vai, até sobrar só um sujeito de sorte. Agora, veja você: se o potencial de letalidade de um ataque, briga ou o que quer que seja ainda não é perto de 100%, é porque ainda temos pessoas idiotas querendo matar umas às outras com os punhos, canivetes, castiçais e etc. Se você coloca uma pistola na mão de cada um deles, o que acontece? Já posso até ver, um futuro pós apocalíptico onde um homem, um destino, um Colt... e um bom tênis de corrida, porque tem um monte de maluco correndo atrás dele com um monte de Colts querendo queimar a bunda do carinha! As pessoas acham que podem ser como Chuck Norris.
Li em um site que um sujeito, Larry Pratt, defensor do porte de armas, disse que no massacre e Columbine, se cada professor tivesse uma arma, o assassino teria sido abatido antes de provocar mais mortes. Certo. Bom, então ao invés de policiais, vamos treinar essa rapaziada toda em tiros de longo alcance e precisão. Aliás, nem precisa de policiais. Coloca um computador pra fazer isso, espalhado pela cidade. Quando ele detecta um crime (não importa qual crime!!!), mete uma bala no sujeito. E cara levanta mão pra uma mulher- BANG!, um sujeito, tentando tomar a carteira do outro no muque –BANG!. E por aí vai. Eu achei que a policia fosse pra prender criminosos, não para matá-los. Mas não, o burro, devo ser eu mesmo.

Nosso mundo livre

Um dia, quando eu for dono do mundo ou ao menos for Ministro da Fazenda, ou seja lá quem for o sujeito que invente o nome do dinheiro, eu vou chamá-lo de Liberdade. Aí, quando aluem chamar alguém para ir ao cinema, o outro pode dizer “hum, acho que posso, tenho $$$ liberdades, o que me permite pagar a passagem, a entrada e, talvez, uma pipoca. Infelizmente não tenho liberdade de comer no McDonaldas, mas tudo bem”. O que quero dizer com isso é um pouco maior do que uma piada tosca. É o seguinte: o discurso moderno, capitalista-democrático (burrr) sugere que todos podem fazer o que quiserem, desde que, claro, seja permitido por lei. Dizem que existem direitos iguais, mas isso é mentira. Não estou falando novidade nenhuma para maioria, mas, acreditem, tem gente que acredita de verdade nesse papo de direitos iguais. Então, imaginem uma corrida. Nela tem um sujeito montado em um cavalo daqueles treinados, de corrida mesmo, e o outro está montado em, digamos, uma tábua de passar roupa. Coitado, foi o que ele pôde comprar, ora. Velente, foi para a corrida mesmo assim. Muito bonito, muito louvável, e pode até ser que ele consiga colocar a tábua na garupa, sair correndo, o cavalo do outro camarada tropeçar ou ter um ataque epoplético no meio da corrida. Mas a menos que tudo isso aconteça, o sujeito da tábua vai perder. Pode ser um jóquei muito melhor, mais competente (supondo que teve dinheiro... ou liberdade... para treinar com um cavalo de verdade. Talvez alugar um, ou pegar emprestado com o coleguinha ao lado). Mas em um mundo normal uma tábua de passar jamais corre tanto quanto um cavalo de corrida, não importa o idiota que a monte. Sério, é verdade! Então, isso me leva ao ponto: em um mundo no qual as pessoas têm condições desiguais de progresso e oportunidade, não pode haver liberdade. Eu fiquei um pouco encucado com isso (o quem e levou a essas obviedades todas – desculpem) por conta de umas coisas que andei lendo e pensando. Sobretudo no que diz respeito a regimes políticos totalitaristas e a democracia propagandeada pelos países que, de alguma forma, lideram o (adoro essa expressão) “mundo livre”. Dizem que no regime totalitário o governo comanda o sujeito de acordo com seu interesse, que por isso ele é mau e cara-de-melão. Olha, que o totalitarismo, ao menos da forma que vimos até hoje (se é que há outra, vai saber...) não foi bom negócio em vários aspectos, essa democracia demagógica e hipócrita que nos trazem como alternativa também não vai bem das pernas. Se você tem um governo que é democrático, mas que por motivos econômicos omite informações do seu povo (talvez alguma coisa referente a uma certa gripe, por exemplo), ou investe em um certo tipo de combustível só pra se consolidar como grande fornecedor mundial dele, mesmo sabendo que é uma política muito da chinfrim frente a outras alternativas e retorno a médio e longo prazo, suponho que ele está deixando um pouco a desejar. O que diabos isso tem a ver com liberdade? Simples: se há manipulação não há liberdade. Manipulação de informação, de idéias, for formação da rapaziada que vai mandar amanhã no mundo. O que você acha que é uma propaganda? Foi-se o tempo que era somente a divulgação de algo novo (se é que um dia já foi só isso – provavelmente não). No dia que você viu, pela segunda vez um comercial de um produto, eles já estão dizendo “olha, esse treco existe. Não que seja importante o suficiente pra você lembrar dele sozinho e por isso venho por meio desta te lembrar, mas se você não tiver – seja lá qual for o produto – você será pior do que quem não tem”. E isso se torna ainda mais perturbador quando o produto em questão é uma idéia, uma forma de ver as coisas. Vendem conceitos, preconceitos, vende coisas que podem não se boas pra você. E quem controla isso? Bom, n regime totalitário é o Grande Irmão, mas aqui, na “democracia do mundo livre”... eu não sei. É uma engrenagem tão grande e complicada que o vendedor de arroz pode ter algum tipo de relação com o fabricante de bonecos do He-Man e, por isso, influenciaram nas decisões um do outro que, no dia que o He-Man aparecer comendo arroz em seu desenho você nem vai saber porquê. E certamente ninguém vai te dizer. Talvez o cara que plante feijão. Mas só se isso atrapalhar seus negócios.

Herói

Invariavelmente a morte é a estrela desse pequeno palco. Muitas são as formas de falar dela, o que acontece depois (ou se não acontece nada, que é o que me assusta), mas pouco se fala de como se chega a ela. Em linha gerais, creio que seja uma marcha mesmerizada até um desfiladeiro, no qual todos cairemos quando chegar a nossa vez. Não queria que fosse assim, mas acho que é. A única coisa que me conforta, não por evitar esse destino fatal, é ver que de vez em quando, uma criança de doze anos pode sair correndo, furar a fila e passar todo mundo, naquele instante, só porque fez algo correto. O que conforta, claro, não é a noticia da sua morte, mas a idéia de que ações como essas fazem com que eu acorde dessa marcha angustiante para o desfiladeiro. Como uma vez um professor meu disse “pode-se morrer, mas não de qualquer jeito”. E foi justamente o que aconteceu com Emerson Gomes essa semana. No domingo ele estava brincando na rua com outras crianças, quando começou um tiroteio. Ele correu em direção a outra criança, um amigo, com metade da sua idade, e o protegeu com o próprio corpo enquanto a insanidade comia solta. Por causa disso foi baleado, se não me engano no quadril, e foi hospitalizado. Ele faleceu nessa segunda-feira, quando tinha doze anos. Creio que se não fosse por ele, quem teria levado a bala seria o amigo, de seis anos. Outra coisa que chama a atenção para a história, como se já não fosse muito esse ato de... nem vou tentar nomear isso... a razão pela qual o tiroteio tinha começado, foi que uma vez um cara impediu que bandidos roubassem um celular. Os safados, não satisfeitos com os planos frustrados, foram atrás do sujeito e meteram bala. Não sei o que houve com esse cara, mas gostaria de saber. Espero realmente que esteja bem. Uma pessoa morrer por fazer o que considera certo já é um preço muito alto. Agora, eu não sei o que é pior: se é uma criança ter mais juízo do que um adulto a ponto de fazer uma opção tão foda quanto essa enquanto esses malditos bandidos fazem a escolha errada – duas vezes – ou se é uma espécie e sensação que essa notícia traz. Porque é uma coisa que me divide. Ao mesmo tempo que fico emocionalmente feliz por ver um herói – um herói de fato! – fico triste por ele se fazer necessário, e mais, por ter que pagar com a própria vida por isso. Ah, esse texto está uma merda, não é metade do que eu quero dizer e muito menos é metade do que esse garoto merece. Eu só queria que esse evento não passasse em branco e que talvez, mais alguém pensasse sobre isso.

O homem que era amado pela Morte

"Um deus que não cuida dos seus, não merece adoração".

Essas foram as últimas palavras dele antes de seus pés dançarem sob o cadafalso. Como muitos dos homens que foram enforcados naqueles tempos, ele foi considerado herege, um inimigo de Deus e, portanto, inimigos dos homens de bem. Claro que naqueles tempos, assim como hoje, os homens de bem eram aqueles capazes que comprar sua entrada no Paraíso, o que excluía a maioria das pessoas e a estas só restava a resignação, a covardia e o medo. Era a favor desses que ele lutava. Mas ele diferia dos demais em um aspecto. Não tinha medo nem fé. Ao longo da história, muitos homens se mostraram audazes, mas no fim das contas, todos estavam sustentados pela convicção de que haveria alguma recompensa pela sua retidão e coragem. Assim morrem os mártires. Eles tinham um lugar melhor para ir do que a terra de seus executores. Da mesma forma, havia os homens que não acreditavam em nada além do ouro e a esses, foram reservados lugares especiais nas fileiras de qualquer um que pudesse pagar seu preço. Mas não com ele. Não era um mercenário, era um nobre. Herdeiro de uma família abandonada por seus súditos, cujo direito sobre as terras fora usurpado pelos inimigos que naquela noite bebem à sua derrota e festejam sua morte. Mas apesar de a morte não ser o fim, para ele, não havia Céu ou Inferno esperando para dar-lhe desfecho. Seu destino estava em suspenso, longe do alcance de suas mãos. Apesar disso, embora estivesse impotente, ele não tinha medo. Estava em uma escuridão infindável, sozinho.

Por quanto tempo esteve só, não é possível saber. Talvez uma eternidade inteira tenha se passado, mas como medir o tempo sem pares ou mundo? Esteve assim até que foi visitado por uma criança com olhar auspicioso. Ela lhe estendeu ambas as mãos. "Você não pode ficar aqui, sozinho, no escuro", ela disse, "venha comigo e essa solidão terminará". "Não temo a solidão", ele disse. Outra eternidade se passou e um homem, com roupas finas e postura altiva surgiu de lugar algum e lhe estendeu a mão. "Não tema", ele disse, "tudo está acabado agora. Vou levar-lhe para onde lhe é devido". "Não. Pertenço ao lugar que escolho, e nenhum outro. Não preciso de guia". Então, quando mais uma eternidade havia se passado, um velho com sorriso malicioso e andar cansado, aproximou-se e disse: "Venha comigo, para fora dessa escuridão. Vou levá-lo a outro lugar, onde poderá fazer algo que não ficar aqui". Ele então lhe disse. "Não importa quantas vezes tente me levar. Não irei para onde não acredito ser o meu lugar. E da mesma forma que não pertenço às punições dos pecadores, pois meu único pecado foi ser justo, não desejo sentar-me ao lado de quem não respeito. Mais uma vez você vem, e mais uma vez eu lhe digo não".

Após outro tempo indeterminado uma mulher aproximou-se dele. Mas ela não disse nada. Dessa vez apenas sentou-se ao seu lado...

O Homem então acordou ainda pendurado, agora sem platéia uivando pela sua dor. Apenas o ronco bêbado de um mendigo lhe deu consciência de que estava ainda no local de sua execução, ainda pendurado pela corda. Compreendeu então que estava vivo, e lembrou-se do que a mulher lhe dissera. "Não entendo porque resiste a mim, porque não cede aos meus chamados. Talvez seja por convicção, mas mesmo os mais convictos jamais recusam a mim. Talvez seja por não temer ficar aqui para sempre, ou temer a mim. Seja como for, estou cativada por você e me encontro diante de uma difícil decisão. Se levá-lo para o que há para além da escuridão, jamais voltarei a vê-lo e isso eu não suportaria. Vou, então, conceder-lhe novamente sua vida. Assim poderá morrer novamente e então nos encontraremos outra vez". Não era um sujeito idiota e sabia exatamente o que aquilo significava.

Os anos se passaram e como da primeira vez, os homens semearam a guerra e regaram como sangue daqueles que os seguiam. Mais uma vez ele mostrou-se contra e tentou fazer algo além de proclamar seus pensamentos. Pegou em armas e buscou resistir à pressão dos poderosos. Entretanto, como acontece aos mais fracos, foi derrotado e morto pelos adversários. Mais uma vez a mulher sentou-se ao seu lado, pegou-lhe mão e sorriu. Mais uma vez voltara a viver. Isso se repetiu algumas vezes, por séculos. Quando um grande evento surge e anuncia que muitos morrerão por poucos, ele ergue-se para fazer resistência.

Hoje um novo tempo se aproxima. A humanidade mais uma vez tem um grande poder em suas mãos e pouco controle sobre ele. Esse poder será objeto da cobiça de alguns homens e eles vão usá-lo para seus fins. Mais uma vez, inocentes e ignorantes morrerão. Mais uma vez ele levantará sua voz contra o poder vigente e buscará mudanças. Dessa vez será diferente. Não lutará sozinho e buscará o apoio de outros como ele. Talvez dessa vez ele vença. Mas, se não, ao menos vai vê-la novamente.

“Oh, Capitão, meu Capitão”

"Por que fez isso?”, perguntaram. Eu apenas sorri. Alguns acharam tratar-se de um sorriso de deboche ou de inconseqüência, por desconhecer a severidade dos meus atos. Mas não se tratava disso, na verdade. Sorri por ver que estavam tão subjugados por sua hipocrisia que eram realmente incapazes de enxergar minhas razões, por mais óbvias que fossem.

Talvez por cansaço, mudaram a sentença: diziam “você fez isso por causa dele!”. Tentaram me comprar ofertando isenção por ingenuidade. Apesar da raiva que senti por ter meu caráter ofendido, hoje vejo que não poderia ser diferente, já que me presumiam em tão baixa conta.

Apesar disso, não lhe expliquei meus motivos. Entendi que não se podia falar com quem não compartilha a língua e eles não entendiam o meu. Eles falavam o idioma da alienação e este, digo com orgulho, deixei para trás no esquecimento. Estavam tão submersos em sua filosofia hipócrita, que preza pela revelação pública, mesmo que notória seja sua farsa encobridora,  que a verdade, não se conformando com seus preconceitos, perde seu status e é relegada aos sussurros nas sombras. Em virtude de tudo isso, quando me ofereceram uma fuga covarde cuspi em seus papéis e sinetes.

Hoje me oprimem com as conseqüências de seus códigos vis. Se não chegam ao meu espírito, buscam ao menos marcar minha carne. Apesar de preservar o quem e cabe de mais digno, gostaria de pensar que venci, mas seria um engano. Uma vitória de tal feitio não tem repercussão nos corredores escuros por onde aqueles corrompidos por seu sistema caminham mesmerizados. Torna-se irrelevante, pois, assim que meus gritos de protestos se esvaírem com minha vida, toda minha luta será profanada. Minha história será escrita como eles desejarem e as razões reais de minhas atitudes serão perdidas para sempre. Não haverá inspiração. No fim a norma segue adiante e devora todos que se prostram diante dela. E são muitos.

Se não venci, o que ganhei, afinal? Gosto de pensar que, apesar disso tudo, não foi uma batalha perdida. Se me perguntam qual foi meu ganho com essa contenda, de pronto respondo: eu sempre me aquecerei nas chamas que consumiram meu algoz.   

 

Dedicado à Sociedade dos Poetas Mortos.